JUDEUS NA RÚSSIA

 

   
    A história do povo judeu na Rússia é antiga e muito importante, tanto para o país como para os judeus.

    Sabe-se da presença de judeus em regiões russas em períodos romanos ou até mesmo nos tempos helênicos. Calcula-se que nos séculos IV e V, existiam entre 10 e 30 mil judeus nas regiões da Criméia e Armênia.

    Por volta do século VIII, a influência do judaísmo nos territórios que hoje chamamos de Rússia era enorme. Um povo semi-nômade, conquistou uma faixa de terra (e nela se estabeleceu) entre o Mar Negro e o Mar Cáspio. Eram os Khazares, cuja nobreza, incluindo a família real se convertera oficialmente ao judaísmo, mas sem forçar a população a fazer o mesmo. Criou-se o chamado “reino dos judeus” que durou até o século X. Mesmo depois da queda dos Khazares, a comunidade judaica continuou forte na região, principalmente no principado de Kiev.

    No século XIV, o principado de Moscou adotou a ideologia de império e começou uma ação para unir as “Rússias” em um reino único. Esta unificação foi liderada por Ivan IV, O Terrível, que, embora fosse um sanguinário, conseguira unir os principados.

    Como primeiro Czar do império Russo, Ivan IV baniu oficialmente todos os judeus dos seus territórios, do contrário, a ordem era que matassem qualquer judeu não convertido encontrado. Esta expulsão levou os judeus a se instalarem nos países periféricos como Ucrânia, Lituânia e Polônia, onde tiveram de refazer suas vidas.

    A partir do final da Idade Média e da unificação do Império Russo, a vida dos judeus começou a sofrer muito com a influência de seus governantes. Na segunda metade do século XVIII, sobe ao trono a Czarina Catarina II. Influenciada pelo despotismo esclarecido, ela governou tentando conciliar os privilégios da nobreza e o poder real com as idéias iluministas. As únicas fatias da população que não compartilharam dos ideais liberais da czarina foram os judeus e os camponeses. Os camponeses se revoltaram diversas vezes, mas os judeus acabaram confinados em um território por um acordo que viria a se tornar um dos mais importantes capítulos na vida do povo judeu na Rússia: o “Território do Acordo”.

    Em 1794 foi decretado que todos os judeus do Império Russo só teriam permissão de viver em um território demarcado e, fora destes territórios, corriam perigo de vida. Esta Zona de Residência, ou Cherta Osedlosti em Russo, tinha 1 milhão de Km² e incluía os antigos territórios da Polônia, Ucrânia, Bielorrússia e Lituânia. Os judeus estavam confinados a seus shtetls, mas viviam nos mesmos territórios que os poloneses, lituanos, ucranianos, etc.

    A política dos czares russos para os judeus tinha como objetivo assimilar todos sem deixar de “usá-los” para favorecer a economia. Ao decorrer de diversos governos, na maioria anti-semitas, a enorme comunidade judaica russa foi marcada por uma pobreza econômica sem precedentes.

    A política de assimilação forçada adotada pelos líderes russos tem como maior exemplo o decreto chamado de “Estatuto dos judeus”, promulgado pelo czar Alexandre I. Este decreto dizia-se um melhoramento na vida dos aproximadamente 1 milhão de judeus russos que existiam pro volta de 1804, mas a real intenção era de “russificar” o povo. O estatuto tinha como metas liberar o ensino das organizações russas para os judeus e, ao mesmo tempo, proibí-los de cultivar terras próprias, obrigando-os a migrarem para o Sul russo e trabalharem nas terras do governo. Entretanto, a comunidade não aceitou nenhum programa de assimilação do czar.

    Sucessor de Alexandre I, Nicolau I reinou de 1825 a 1855 com punho de ferro e nacionalismo extremado. Foi no reinado deste czar que se fez um decreto lembrado até hoje, os “decretos de cantão”. Esta reinterpretação da lei do alistamento militar foi a ação mais agressiva com objetivo de assimilar os judeus na Rússia. Consistia na obrigação dos garotos judeus que atingissem 12 anos de irem às escolas cantonais. Estas escolas tinham péssima condição de vida e os meninos passavam por violências fortes e até fome. Estas instituições nada mais eram do que bases de assimilação forçada onde se realizavam até conversões compulsórias.

    Em 1855, sobe ao trono o czar Alexandre II. Conhecido como “Czar Libertário”, ele foi o primeiro czar a implantar com força uma reforma em todo o reino para que este deixasse sua atividade agrícola e sua aristocracia atrasada para ingressar no mundo capitalista.

    Esta mudança promovida por Alexandre II criava esperanças para o povo judeu que era formado por quase 3 milhões de pessoas e, realmente, boa parte do reinado do czar representou uma melhora relativa na vida dos judeus russos.

    Aproveitando-se da atividade econômica já exercida por várias famílias judias, Alexandre II começou a beneficiar os judeus pródigos em atividades capitalistas e artísticas para que estes viessem a contribuir para o crescimento econômico da Rússia.

    As duas décadas subseqüentes apresentaram uma explosão na economia russa e em conjunto a isto, muitos judeus se beneficiaram. A atividade banqueira, a construção ferroviária e a mineração destacaram famílias judias que até chegaram a obter títulos de nobreza.

    Em 1881, Alexandre II foi assassinado em um atentado contra a coroa e, entre os seus assassinos, estava uma jovem judia. A mídia cresce contra os judeus e criam-se histórias de conspirações judaicas para controlar o país. Quando o sucessor da coroa, Alexandre III, toma o poder, instantaneamente começam a haver pogroms em toda Rússia, incluindo vilarejos dentro da Cherta (A região de Assentamento).

    Neste mesmo ano, o czar criou as Leis de Maio. Estas apontavam que os pogroms contra os judeus eram resultado de um ódio popular e, portanto, o governo deveria restringir a atividade desta minoria. Atividades econômicas e escolaridade foram limitadas, o território permitido de moradia foi diminuído. Como resultado, 40% dos 4 milhões de judeus russos estavam pobres e a emigração aumentou drasticamente.

    Em 1895, a vida dos judeus na Rússia se tornou uma rotina de perseguições com a subida ao trono do czar Nicolau II. Conhecido como o czar dos pogroms, Nicolau II usou o povo judeu como bode expiatório para o ensaio revolucionário de 1905 (série de manifestações, iniciadas após a derrota na Guerra Russo-Japonesa, pelo controle da Coréia e da Manchúria, contra o regime absolutista, que, posteriormente, foram consideradas precedentes da revolução comunista de 1917). Ataques a vilarejos foram patrocinados, panfletos anti-semitas, incluindo os Protocolos dos Sábios de Sião (documento forjado com o objetivo de canalizar a raiva contra o sistema para os judeus e apresentar a nobreza como protetora contra os judeus), foram distribuídos amplamente para a população, que rapidamente aderiu à causa, realizando os ataques às moradias judaicas.

    Em 1917 as revoluções russas (de Fevereiro e Outubro, pelo calendário juliano) acabaram com o reinado czarista de mais de 300 anos. A revolução aparecia como um refúgio contra a opressão dos absolutistas, sendo assim, diversos judeus aderiram a causa revolucionária liderando grupos esquerdistas.

    Alguns meses depois da revolução menshevique (de Fevereiro, moderada), o Exército Vermelho (bolshevique, radical) se voltou contra o governo de Alexander Kerensky (um menshevique) na revolução de Outubro. Esta teve amplo apoio dos judeus que se opunham ao Exército Branco, que era basicamente, uma confederação desorganizada de exércitos que se opunham ao bolshevismo e que eram acusados de representar os interesses estrangeiros (de fato, os exércitos brancos foram financiados por outros países). O Exército Branco resistiu até 1923, mas nunca conseguiu coordenar suas várias frentes de batalha; o único denominador comum entre seus soldados e oficiais era a oposição ao exército vermelho, motivo pelo qual muitos cossacos se juntaram.

    Com a revolução de outubro (e a paz de Brest-Litovsk, um ano depois, com a Alemanha), as fronteiras russas foram diminuídas e, assim, o número de judeus que permaneceram no país diminuiu drasticamente: só restavam 2 milhões e 500 mil. Estes eram grandes contribuintes para o comando soviético entrando para o exército vermelho (fundado pelo judeu Trotski) ou mesmo liderando algum grupo apoiador do governo. Mas o ideal comunista não aceitava religiões e logo ritos e tradições foram proibidos. Escolas foram fechadas e mesmo a impressão de livros sagrados foi impedida. Esta campanha contra a cultura judaica religiosa foi liderada principalmente por Joseph Stalin.

    Durante a Segunda Guerra Mundial, o exército soviético tinha 4,4% de seus soldados judeus o que os levou a uma importante peça para a força da armada russa.

    A repressão contra a cultura judaica na Rússia continuou mesmo depois da morte de Stalin e só foi cessada no governo do presidente Gorbatchev e sua política Glasnost (em russo: transparência). Gorbatchev, que assumiu o poder em 1985, iniciou um processo de abertura do regime comunista, desarmamento parcial, democratização e liberdade.

    Hoje em dia, a comunidade judaica russa é a 4ª maior do mundo, perdendo de Israel, EUA e França. Existem inúmeras entidades judaicas, incluindo 4 universidades. Os judeus russos são importantíssimos para a história do povo, pois demonstram que mesmo com miséria e opressão, o judaísmo pode continuar vivo.

    Ver mais: Aliá da URSS e da CEI, Judeus na União Soviética e Revolução Russa

CHAZIT HANOAR

Chazit Hanoar

Porto Alegre

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