O SHTETL (por Segio Feldman*)

   
   Uma vez eu descobri o escritor e “filósofo” Scholem Rabinovitch, mais conhecido como Scholem Aleichem (este termo traduzido ao português significa “A Paz Seja Convosco”). Foi um encontro com um dos maiores tesouros literários de nossa cultura milenar. Entre muitas de suas obras gostaria de refletir sobre as que falam de uma aldeia fictícia denominada “Kasrilevke”. Há pelo menos uns cinco ou talvez dez contos que falam desta aldeia criada na imaginação fértil deste sensível escritor. Seria uma aldeia igual a milhares de aldeias situadas na Rússia Czarista, entre a metade do séc. XIX e o final da Primeira Guerra Mundial (1918). Algumas sobreviveram até 1939, em meio a países originados da queda do Império Russo: Polônia, por exemplo. Muitos de nossos avós vieram destas aldeias denominadas em idish “shtetl”.

    O “shtetl” surgiu como o resultado de dois processos intimamente ligados: a exclusão social dos judeus da sociedade na Rússia Czarista e na Europa Oriental, e a colocação dos mesmos em uma região (Zona de Residência Judaica), restringindo seu direito de circulação em cidades, certas regiões da Rússia, e a posse de campos de cultivo. Uma maneira de concentrar e discriminar os judeus, forçando-os a uma aguda pauperização e retirando da minoria judaica qualquer resquício de direitos. Criada pelos czares Nicolau I (por volta da metade do séc. XIX) e mantida pelos czares Alexandre II e III, e pelo último czar Nicolau I.

    Nas palavras de Scholem Aleichem, ao descrever Kasrilevke: seria um local “onde os judeus foram amontoados uns sobre os outros, como arenques num barril, com a ordem de crescerem e se multiplicarem”. Para quem não sabe o que é um arenque, seria um peixe em conserva, denominado pela maioria como “hering”. Se tratava da versão local para dizer que viviam como “sardinhas em lata”. A expressão literária de Scholem é muito rica, mas se perde ao traduzirmos do idish ao português. Estas aldeias eram um amontoado de casinhas mal construídas e apertadas, com ruas tortuosas e sem planejamento nenhum. Sem um sinal de urbanização, sujas e sem iluminação pública, esgotos nem água encanada. Uma das profissões era ser transportador de água ou “aguadeiro”: levar baldes da fonte local para as casas. Outros eram carroceiros. Muitos músicos e muitos desempregados. Duas coisas em comum: eram todos judeus e todos viviam famintos. Passavam o dia indo e vindo a procura de algum trabalho ou algum negócio: sem capital e sem profissão eram uma espécie de “viradores”. O termo utilizado pelos próprios judeus para se autodenominarem era “homens que viviam do ar” ou ”luftmenschen”. Viviam do ar: não tinham quase nada e viviam com muito pouco. Eram literalmente famintos.

    Não um tipo qualquer de famintos. Podiam passar fome durante a semana, mas tratavam de “ganhar para o sábado”.

    Nos relata Scholem com seu humor e sensibilidade: “Ganhar para o sábado — eis o ideal desta gente. A semana inteira eles trabalham, mourejam a duras penas, se arrebentam de labutar, comem o pão que o diabo amassou, bebem água dos infernos, contanto que garantam o sábado”. Traduzindo este trecho significa que na falta de trabalho, correm a semana toda atrás de alguma ocupação para obter pelo menos algo para comer e assim celebrar o Shabat (sábado judaico). Se não conseguissem algum trabalho e não pudessem adquirir alimentos, a solidariedade grupal ajeitava algo: um vizinho emprestava uma “chalá” ou um pouco de peixe para se celebrar o Shabat A identidade coletiva ajudava a sobreviver numa época de enormes dificuldades. Ser judeu era difícil, mas nas palavras de Scholem: eram “pobres, mas felizes (ou contentes)”. E se interpelados por algum visitante, que lhes questionassem: como sobreviviam? do que viviam? Respondiam evasivamente: “Do que vivemos? Não está vendo? Há, há, há! Vivemos”. Discriminados, pobres, famintos e vivendo em uma verdadeira favela (nos padrões locais). E se declaram felizes. Seria uma idealização de Scholem? Possivelmente sim. Por outro lado há um símbolo implícito nesta pequena obra: sobrevivem através de uma identidade coletiva, criam uma solidariedade grupal sem igual e resistem apesar das adversidades. Sua razão de ser é sobreviver, como judeus e como seres humanos: alias os dois aspectos são um todo coerente. Não poderiam ser apenas um deles.

    O “shtetl” não existe mais desde a Segunda Guerra Mundial. Permaneceu na memória dos sobreviventes que estão se indo aos poucos. Permaneceu em fotos que poucos conhecem. Alguns de seus valores não existem mais: solidariedade, resistência cultural e identidade coletiva. A simplicidade e a pobreza foram substituídas pelo estilo de vida refinado e consumista da sociedade judaica plenamente integrada na sociedade geral. Há judeus pobres, mas deixaram de ser a maioria e a pobreza deixou ser uma característica judaica. Hoje, a comunidade ganhou status, riqueza, bens e direitos civis. Por outro lado perdeu valores, identidade e coesão grupal. Quem será que seria mais pobre: os habitantes de Kasrilevke, pobres, mas felizes ou nós, judeus sem identidade, sem concepção de mundo e sem espiritualidade? O divã do psicanalista serve para minorar as dores de uma personalidade partida: perdemos a identidade judaica e somos mais um grupo dissolvido na multidão. Sem a identidade perdemos o jeito judaico (idishkait) e nada mais somos que uma sombra no meio da massa amorfa e perdida. Admito que é nostalgia e que é impossível querer voltar atrás na história; que é cegueira propor voltar ao “Shtetl” e aos níveis de pobreza e carência de cidadania de nossos ancestrais; que é antiquado viver sob um estilo de vida conservador e atado às restrições rígidas do Judaísmo normativo. Então o que fazer para restaurar nossa identidade? Buscar as raízes judaicas e repensá-las. Tentar entender e contextualizar o judaísmo no mundo contemporâneo. Em nossa kehilá vemos por um lado judeus sem identidade e por outro judeus que repetem o modelo antigo, a maneira ortodoxa. Se um é carente de espírito, o outro nega a nova realidade. Um se distancia da tradição e dos valores: o outro fica na “letra do texto”, sem interpretar as mesmas, de maneira coerente com os novos tempos e desta forma negando a característica judaica de atualizar a tradição. Não há judaísmo fora de seu tempo: este é o segredo de sua sobrevivência.


    * Levemente adaptado do texto Revistando o Shtetl - Reflexões sobre um passado não muito remoto, publicado na revista Visão Judaica
    * Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutorando em História pela UFPR

CHAZIT HANOAR

Chazit Hanoar

Porto Alegre

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