O Socialismo Judaico e a Revolução Russa (séculos XIX e XX)

"O primeiro homem que, tendo erguido uma cerca  em volta de seu terreno  e proclamado

"isto me pertence!", encontrou gente ingênua o suficiente para acreditar nele,

 foi o fundador da sociedade civil"  

Jean-Jacques Rousseau

 
    Durante o final do século XIX, muitos judeus começaram a se voltar para uma nova idéia que estava surgindo, o socialismo. Um dos principais motivos para esta tendência, era a relação que alguns judeus faziam entre o socialismo e o Messias. De acordo com essa idéia, o socialismo corresponderia ao Messias, já que  traria um mundo ideal e de igualdade.

          Na Rússia, os judeus viviam, em sua grande maioria, nas cidades como proletários. Devido a essa situação, quase todos eram muito pobres e precisavam agüentar longas jornadas de trabalho. Além disso, a grande tradição que os judeus têm nos estudos, colaboraram para que alguns dos mais importantes participantes dos movimentos socialistas na Rússia fossem judeus.

          Os socialistas começaram a ganhar força, a partir de 1860, com o Narodnik, movimento agrário populista. Nesse movimento, a participação de judeus era pequena, já que a maioria dos judeus russos vivia nos centros urbanos. Alguns judeus ainda tentaram participar do grupo, mas este, devido a seu caráter nativista, era anti-semita.

        Na década de 1890-1900, o socialismo Marxista torna-se forte. Um grande número de judeus adere a esse grupo. Forma-se o partido Social-Democrático Russo, com importante participação de Pavel Axelrod, que também ajudou a fundar a Segunda Internacional Socialista. O ideal de Axelrod, também influenciou de maneira importante, toda uma geração de socialistas, entre os quais se destacam Lenine, Trotsky, Kautsky, Bernstein e Zederbaum.

       Contudo, a opção socialista não podia ser totalmente aceita por parte do proletariado judaico. Isto ocorria, pois muitos judeus não buscavam uma revolução de classes sangrenta, algo que fugia totalmente às suas tradições. Esse grupo de judeus se uniu e organizou greves bem-sucedidas entre 1895 e 1896. Em seguida, chegou-se a conclusão que para tornar esse movimento forte e judaico, seria necessário a adoção do ídiche. Assim, em 1897, um grupo de quinze judeus socialistas estabeleceu o Bund (Organização Socialista Judaica).

       No princípio, sob a liderança de Kremer, o Bund imitava o Partido Social-Democrático Russo. Isso não correspondia aos ideais da maioria dos judeus. O Bund, começou então, a prestar atenção nos interesses populares judaicos. A autonomia Nacional Judaica,  em qualquer lugar que fosse, como defendido por Simon Dubnow tomou força. Essa idéia gerou fortes brigas entre os Sociais Democratas e os membros do Bund. Quando o congresso Social Democrata Russo negou autonomia ao Bund, este declarou independência e firmou-se como o movimento Nacionalista e Socialista dos judeus Russos.

      Apesar de serem ambos Nacionalistas, o Bund e o Sionismo eram adversários políticos e os membros do Bund viam o Sionismo como um "Utopismo Burguês". As principais críticas eram devidas à dependência em relação ao Sultanato Turco , a necessidade de ajuda de capitalistas e filantropos judeus e à ignorância do sionismo aos problemas econômicos, sociais e políticos imediatos dos judeus russos.

      Outro adversário que o Bund enfrentava era a de toda a classe média e alta. A ação contra revolucionária das tropas imperiais, juntamente com liberais e conservadores dificultaram e tornaram perigosas as ações do Bund. Porém, ele manteve-se  até a primeira guerra mundial,  participando ativamente de greves e  ajudando a propagar o socialismo.      

      Durante a Primeira Guerra Mundial, a Rússia entrou na guerra ao lado da Inglaterra e da França. Contudo, sua população começou a sofrer muito com os problemas advindos da guerra. A miséria era muito forte. Havia uma forte pressão para que o Czar tirasse e Rússia da guerra. Contudo, ele não o fez. No início de 1917, o partido Menchevique (Liberais Burgueses) depôs o Czar Nicolau II. Sob a direção de Alexander Kerensky, a Rússia não saiu da guerra e a situação pouco melhorou. Em 7 de Novembro, os Bolcheviques (socialistas) assumiram o poder, sob a liderança de Lênin.

      Apesar de não ser o ideal de governo da maioria dos judeus, o governo Bolchevique contou com a participação de alguns judeus isolados. Entre eles, destacam-se Jacob Sverdlov (presidente do Comitê Executivo Central), Grigori Zinoviev (presidente da Terceira Internacional), Maxim Litvinov (Comissário Soviético pa Relações Exteriores). Todavia, o mais importante judeu Bolchevique, foi Leon Trotsky. Com uma carreira bem-sucedida dentro do partido Bolchevique, Trotsky foi Comissário das Relações Exteriores e Comissário da Defesa. Com a morte de Lênin (em 1924), disputou com Stalin a liderança do partido, mas acabou sendo derrotado e exilado.

        A proeminência de vários judeus entre as lideranças socialistas, acabou gerando uma nova espécie de anti-semitismo e um fenômeno bastante curiosos. Parte da direita começou a perseguir os judeus por serem comunistas, enquanto parte da esquerda já perseguia os judeus por serem os bancários burgueses.